Com mais de oito mil pessoas que lotaram o pátio e os corredores do Ciclo Básico, a Assembleia Universitária Extraordinária da Unicamp, realizada nesta terça-feira, 15, aprovou por unanimidade dos presentes uma moção em defesa da ciência, educação e autonomia das universidades públicas.

A moção, dirigida à sociedade brasileira, foi apresentada pelas entidades representativas da comunidade acadêmica da Unicamp, também responsáveis pela convocação e organização da assembleia: Reitoria, ADunicamp, STU, DCE e APG.

Essa é a primeira vez, em 53 anos de existência da Unicamp, que todas as entidades representativas da comunidade acadêmica convocam uma Assembleia Universitária Extraordinária, ato previsto nos estatutos da universidade.

A decisão da convocação, como ressaltaram todos os representantes das entidades que falaram durante o ato, foi tomada diante dos repetidos ataques e cortes nos orçamentos das universidades públicas federais e paulistas e na redução drástica das verbas destinadas às bolsas de pesquisa e à pesquisa pública.

“A comunidade acadêmica da Unicamp manifesta sua indignação diante dos reiterados ataques contra a educação e a ciência perpetrados no Brasil nos últimos meses, e conclama a sociedade a unir-se em defesa da universidade pública gratuita, laica, socialmente referenciada e de qualidade. Neste momento preocupante da história nacional, caracterizado por uma crise econômica e política sem precedentes, é vital que as universidades públicas reafirmem seu valor e ressaltem a importância da autonomia para o cumprimento de sua missão”, diz a Moção à Sociedade, aprovada pela assembleia.

Os números apontados pelo reitor Marcelo Knobel são alarmantes: o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) registrou este ano um déficit de R$ 330 milhões, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), de R$ 800 milhões, e a Finep (Financiadora de Inovação e Pesquisa) está paralisada pela falta de recursos necessários para honrar compromissos assumidos.

“Nenhum país em crise financeira corta recursos em educação e ciência, ao contrário, são essas áreas que permitem a recuperação e o desenvolvimento econômico”, afirmou Knobel.

ADUNICAMP

O presidente da ADunicamp, professor Wagner Romão (IFCH), e a diretora de Comunicação, professora Edwiges Morato (IEL), que falaram em nome da entidade, apontaram também o projeto de verdadeiro desmonte da universidade pública que tem sido proposto pelos governos Federal e Estadual.

“Os governos de plantão têm apresentado à sociedade, com seus Future-ses (como se pensar o futuro fosse uma ação individual oportunista e “empreendedora”!) ou com suas Universidades Virtuais (como se as trocas presenciais entre professor e estudante pudessem ser prescindidas!) uma outra coisa, que sequer pode ser chamada de Universidade”, apontaram.

A MOÇÃO Á SOCIEDADE

Veja, abaixo, a integra da moção aprovada pela assembleia:

“A comunidade acadêmica da Unicamp manifesta sua indignação diante dos reiterados ataques contra a educação e a ciência perpetrados no Brasil nos últimos meses, e conclama a sociedade a unir-se em defesa da universidade pública gratuita, laica, socialmente referenciada e de qualidade.

Neste momento preocupante da história nacional, caracterizado por uma crise econômica e política sem precedentes, é vital que as universidades públicas reafirmem seu valor e ressaltem a importância da autonomia para o cumprimento de sua missão.

Como se sabe, a missão primordial de universidades como a Unicamp, mantidas com recursos provenientes de impostos, consiste em formar pessoas altamente qualificadas, desenvolver pesquisas de impacto e colocar o conhecimento que produzem à disposição da sociedade por meio de atividades de extensão e assistência.

Ao mesmo tempo, espera-se das universidades públicas que acompanhem as transformações acadêmicas, científicas, tecnológicas, sociais e culturais do mundo contemporâneo, buscando formas de promover a diversidade e a inclusão social em suas comunidades, de ampliar a transparência de seus processos e de atender aos objetivos de desenvolvimento sustentável.

Nada disso é possível sem que se observe o princípio da autonomia, garantido às universidades públicas pelo artigo 207 da Constituição Federal de 1988. Atentar contra a autonomia significa impedi-las de fazer suas próprias escolhas, fundamentais para a criação e manutenção de um ambiente estimulante, desafiador, criativo, dinâmico e, sobretudo, de respeito às pessoas e à diversidade de opiniões.

Os obstáculos que têm sido impostos às universidades públicas – seja por meio de cortes orçamentários diretos, diminuição dos recursos direcionados às agências de fomento ou pressões de natureza econômica, ideológica ou social – colocam em risco a estrutura do sistema nacional de ciência, tecnologia, inovação e ensino, deixando o país sujeito ao retrocesso e ao obscurantismo.

Os argumentos nos quais se baseiam os ataques recentes, fortemente marcados pelo anti-intelectualismo e por um profundo desprezo pelo conhecimento científico, revelam uma visão equivocada da função da educação superior e da ciência. Os recursos de que as universidades públicas necessitam para realizar suas atividades-fim não podem jamais ser encarados como um custo para o Estado, mas sim como um investimento no futuro do país.

No Brasil, assim como em todos os países desenvolvidos, a pesquisa nas universidades é financiada majoritariamente pelo Estado, por meio de suas agências de fomento. Interromper o fluxo de recursos para essas instituições constitui um equívoco que impedirá o país de enfrentar e resolver os grandes desafios sociais e econômicos que se apresentam.

Da mesma forma, as críticas a áreas específicas, como as humanidades e as artes, demonstram uma ignorância absoluta do papel fundamental que a busca por conhecimento exerce no desenvolvimento do pensamento crítico e criativo, bem como na formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento social, à redução das desigualdades e ao respeito à diversidade.

Diante de tudo isso, cabe à Unicamp unir-se às demais instituições que buscam reagir às investidas contra as universidades públicas e, por conseguinte, ao violento processo de desmonte dos sistemas nacionais de educação superior e de ciência, tecnologia e inovação.

A comunidade acadêmica da Unicamp reafirma, aqui, o seu compromisso com a defesa das liberdades de cátedra e de livre organização associativa e estudantil. É preciso, neste momento, zelar pelo patrimônio inestimável que as universidades públicas representam para o Brasil. Urge uma consistente mobilização para evitar que os frutos de tantos anos de investimento de toda a sociedade sejam colocados em risco por uma política que ignora tanto o passado, quanto o presente, e ainda ameaça o futuro do país. A isso, é preciso reagir!

A FALA DA ADUNICAMP

Leia, abaixo (e/ou assista ao lado), a integra da intervenção do professor Wagner Romão e da professor Edwiges Morato na Assembleia:

“Neste dia 15 de outubro, quando se comemora o dia do professor, vale o ensinamento de um dos maiores mestres que esta Universidade conheceu: Paulo Freire.

O mestre deu régua e compasso para o sentido e o alcance das ações pedagógica, científica, social e política enfeixadas no trabalho do professor:

‘É preciso ter esperança. Mas tem de ser esperança do verbo esperançar”. Por que isso? Por que tem gente que tem esperança do verbo esperar. Esperança do verbo esperar não é esperança, é espera (…) Já esperançar é ir atrás, é se juntar, é não desistir. É ser capaz de recusar aquilo que apodrece a nossa capacidade de integridade e a nossa fé ativa nas obras.  Esperança é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída. Por isso, é muito diferente de esperar; temos mesmo é de esperançar!’

Vale notar que duas ideias associadas a essa compreensão de esperança, sem as quais o homem não evoluiu na filogênese, sem as quais o homem praticamente não levanta da cama toda manhã e sem as quais não surge o inesperado (para lembrar aqui o poeta Murilo Mendes) e nem a mudança: são as ideias de luta e a de ação conjunta!

Por que lutar? Por que lutarmos juntos? Por que lutar pela Universidade Pública e pela Unicamp?

Não apenas por suas virtudes, aqui já apresentadas nas falas que nos antecederam.

Mas sobretudo por aquilo que ela pode ainda vir a ser!

Os governos de plantão têm apresentado à sociedade, com seus Future-ses (como se pensar o futuro fosse uma ação individual oportunista e “empreendedora”!) ou com suas Universidades Virtuais (como se as trocas presenciais entre professor e estudante pudessem ser prescindidas!) uma outra coisa, que sequer pode ser chamada de Universidade!

Estamos plenamente satisfeitos com o que a Unicamp é hoje?

Por certo que não!

Mas, sabemos que as bases estão lançadas para que ela seja muito melhor, muito mais inclusiva, muito mais gratuita (ênfase!), muito mais atuante na sua comunidade do entorno – Campinas e região -, muito mais transformadora de nossa realidade, muito mais comprometida com o rompimento das crueis desigualdades que permanecem entre nós!

Desigualdades essas que nos separam e nos impedem de construirmos juntos a Universidade de nossos sonhos e a sociedade de nossos sonhos!

Na Universidade dos nossos sonhos – que construimos a partir de nossa Unicamp como ela é hoje – professores e funcionários recebem justos salários por seu trabalho!

Na Universidade dos nossos sonhos, há carreira bem estruturada, não há arrocho salarial, não há terceirização e precarização do trabalho, há respeito aos direitos trabalhistas!

Há segurança de seus trabalhadores para que possamos desenvolver plenamente nossas capacidades no ensino, na pesquisa e na extensão!

Há liberdade do aprender e do ensinar! Há espaço para a pesquisa básica e para a invenção!

Há compromisso com a democracia e com a busca da verdade!

Estes desejos, estes sonhos, têm sido a inspiração da ADunicamp ao longo destes mais de 40 anos de existência! E a sociedade brasileira e a comunidade universitária podem ficar certos de que estaremos prontos a continuar a defender e, mais que isso, a trabalhar juntos para que esta Universidade dos nossos sonhos se torne realidade, a cada dia!

Do que defendemos a Unicamp?

Da sombra do obscurantismo e do conservadorismo, por certo.

Mas também do subfinanciamento e da negligência do Estado, do proselistismo político, do arrocho salarial, da exclusão de categorias de cidadãos brasileiros, das más condições de trabalho, da lógica empresarial que compromete o equilíbrio de suas atividades fim e de seu compromisso com o interesse público emancipador, democrático e socialmente referenciado.

Nesse contexto, qual o papel da ADunicamp?

O seu papel tem sido, historicamente, de defesa intransigente da universidade, educação e ciência públicas! Isso, ao lado comunidade universitária, em conjunto com outros sindicatos docentes, associações de classe e movimentos sociais.

Neste dia particular na vida da Universidade, dia em que voltamos a juntar forças, esperanças e lutas para defender a integridade das condições da vida universitária em seus muitos aspectos, a Associação de Professores da Unicamp celebra este ato – a Assembleia Unificada – porque o sentido da qualidade da vida associada passa pelo reconhecimento  da centralidade do papel do professor na aventura humana de construir e compartilhar conhecimento.

Viva o professor brasileiro!

Um viva aos estudantes e aos que trabalham nas instituições de ensino e pesquisa brasileiros!

Que viva a Universidade Pública Brasileira!”