Instituições científicas e médicas do mundo inteiro correm hoje em busca de uma vacina e de medicamentos para a cura da Covid-19, mas ainda não existe nenhum medicamento comprovadamente eficaz, embora vários deles venham sendo testados. Por isso, a apresentação da cloroquina como um medicamento capaz de eliminar o novo coronavírus é uma “solução mágica” sem base nenhuma nas ciências médicas e farmacológicas. E a propagação dessas “curas milagrosas” ainda sem comprovação científica, como têm sido feitas até pelo presidente da República Jair Bolsonaro, aliada à forma precária como o Brasil têm enfrentado a pandemia, impedem qualquer prognóstico sobre o resultado final da “crise do coronavírus” no Brasil. Estas foram algumas das conclusões apresentada no debate: CORONAVÍRUS: A contenção do tratamento da Covid-19 em debate”, o sexto da série sobre o tema promovido pela ADunicamp.

Participaram do debate a professora doutora Wanda Almeida (FCF/Unicamp), com larga experiência no desenvolvimento de fármacos; e o professor doutor Gastão Wagner Campos (FCM/Unicamp), médico sanitarista com atuação nas áreas de Saúde Coletiva e Saúde Pública. O debate foi mediado pelo presidente da ADunicamp, professor doutor Wagner Romão (IFCH) e transmitido ao vivo. A integra do encontro pode ser vista Facebook, acessando a página www.facebook.com/ADunicamp

A professora Wanda relatou que existem vários medicamentos já utilizados para a cura de outras doenças e que têm sido receitados por médicos no mundo inteiro para debelar alguns sintomas secundários que ocorrem na Covid-19. Entre eles, têm sido utilizados antivirais e medicamentos utilizados em pacientes com Aids. “Mas não existe nenhum medicamento específico e eficaz para a Covid-19”.

Até chegar ao ponto de poder ser usado clinicamente, um novo medicamento passa por um longo processo de testes que pode demorar alguns anos, relatou ela. Primeiro, é testado in vitro, com enzimas, células; depois com animais e, mesmo quando passa a ser testado em humanos, nos ensaios clínicos, pode apresentar diferentes resultados de acordo com as faixas etárias, gênero ou grupos étnicos. “E não é nada disso que temos visto com a cloroquina”.

“Não estou dizendo que a cloroquina nunca vai ser útil”, avaliou. Mas todos os resultados apresentados até agora são pontuais e ainda muito controversos. Para ela, ninguém “é contra” a cloroquina. “Mas não existem estudos publicados hoje que permitam o seu uso clínico em larga escala”. Até porque, advertiu, mesmo os resultados positivos apresentados em alguns casos isolados não podem ser atribuídos apenas ao medicamento, mas também às condições do paciente. “Pode funcionar para alguns, mas não necessariamente para outros”. E até o momento só foram apresentados resultados do medicamento em grupos pequenos. “E ninguém conseguiu associar diretamente os casos em que houve curas com a cloroquina”.

A cloroquina pode provocar efeitos colaterais graves, como arritmia cardíaca. E alguns medicamentos antivirais, quando administrados em conjunto, potencializam esses efeitos. Na França, informou Wanda, a associação da cloroquina com alguns medicamentos foi suspensa, após a ocorrência de mortes e problemas cardíacos graves em pacientes.

A professora criticou duramente a forma como figuras públicas, entre elas o presidente Bolsonaro, têm apresentado a cloroquina como “solução mágica”. “Quem prescreve é o médico, que não vai ouvir políticos ou economistas. Prescrever ou não é uma decisão do médico, que foi qualificado para isso”.
Wanda se disse alarmada com as informações de que alguns pacientes têm discutido com médicos/as exigindo o uso da cloroquina. E lançou um alerta: “Não saiam por aí ouvindo pessoas que não têm nenhuma formação clínica ou acadêmica, pedindo para usar o medicamento ou pedindo para o médico usar”.

INCERTEZA
“A grande dificuldade no combate ao coronavírus é que trabalhamos com um grau de incerteza muito grande. E ainda não temos vacina, talvez só no próximo ano. Ou nem isso: temos que lembrar que dengue e Aids também são vírus, e ainda não temos vacinas para elas”, afirmou o professor Gastão.

A quantidade de casos e de casos graves também é muito grande, devido à alta capacidade de transmissão do novo vírus. Embora estime-se que cerca de 80% dos infectados não apresentem sintomas, a metade dos 20% que apresentam acabam precisando de UTI e, destes, metade morre. “O índice de letalidade é muito alto”, afirmou.

Para Gastão, trata-se de uma epidemia muito mais grave do que as dos vírus H1N1 e da influenza, e “tem que ser enfrentada com o uso de várias estratégias”. E as estratégias devem ser somadas. Assim, tanto o isolamento horizontal como o vertical podem ser utilizados. Só que o isolamento vertical, para ser eficiente, exige uma grande quantidade de testes. “Você isola alguns setores de uma fábrica, por exemplo, caso tenha ocorrido ali algum caso de infecção”. Mas essa estratégia só pode ser empregada de houver uma campanha sistemática de testes. Daí o risco de aplica-la em larga escala no Brasil, país que tem um dos mais baixos índices de testes do mundo.

Gastão alertou que o Brasil já deveria ter iniciado, há semanas, o isolamento regional. “Mas temos um problema. O Ministério da saúde trabalha pelo isolamento, mas o presidente da República e auxiliares são contra o isolamento”.

Grave também, apontou o professor, é a falta de alternativas sociais para enfrentar os efeitos causados na economia pelo isolamento e pela Covid-19. “Essa proteção tem que acontecer. As pessoas têm que comer, têm que viver”. Além disso, no conjunto das estratégias, é indispensável que sejam feitos investimentos em ciência, em vacinas e medicamentos. “E temos que pensar que parte importante dos infectados vai precisar do SUS, de respiradores, de equipamentos”.

A maioria dos países que têm conseguido conter a expansão descontrolada da pandemia, lembrou Gastão, utilizou esse conjunto de medidas em menor ou maior proporção. Mas o Brasil ainda não apresentou uma estratégia coordenada para enfrentar a pandemia.
De acordo com Gastão, o quadro só não está ainda mais grave no Brasil, graças ao SUS. “Países que têm um sistema único de saúde, como o SUS, têm se mostrado muito mais capazes de enfrentar a pandemia”.

“E isso ocorre mesmo com o SUS subfinanciado. Temos que lembrar que, nos últimos três anos, foram retirados 20 bilhões de reais do SUS”. E investimentos no SUS terão que ser feitos com urgência, até para garantir equipamentos de proteção individual para as equipes. “Infelizmente, temos um presidente da República que faz um negacionismo, num momento em que a Covid-19 está obrigando o mundo inteiro a colocar o ser humano na frente da economia”.

Esse quadro, avaliou Gastão, torna impossível que se faça qualquer previsão sobre o futuro e sobre os efeitos da pandemia no Brasil.

OUTROS DEBATES
A ADunicamp já realizou, nos dias 16, 18 e 25 de março e 1° e 7 de abril, cinco debates para discutir questões relacionadas à Covid-19, todos eles coordenados pelo professor Wagner Romão.

O quinto debate, com o tema “Ensino à Distância no contexto da pandemia”, apontou que a opção ampla pela utilização da EaD tem sido realizada de forma improvisada e imediatista pelas políticas educacionais do governo Federal, de governos estaduais e municipais e por um grande número de instituições de ensino brasileiras. E, por isso, ameaça precarizar todos os níveis do ensino e ampliar as desigualdades já acentuadas no sistema de ensino do país.

Participaram do encontro as professoras Heloísa Lins, da Faculdade de Educação da Unicamp e integrante da Abalf (Associação Brasileira de Alfabetização); Solange Pozzuto, diretora da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) e integrante do Fórum de Educação de Campinas; e o professor Salomão Ximenes, da UFAABC (Universidade Federal do ABC), com especialidade nas áreas de Direito e Políticas Públicas.

quarto debate teve como tema “Coronavírus: isolamento espacial, tensões sociais e violência doméstica”. Para os três debatedores que participaram do encontro, a pandemia tem deixado cada vez mais evidentes algumas das principais contradições sociais e econômicas da sociedade brasileira, e será inevitável que novos pactos sociais sejam construídos assim que ela chegar ao fim. Participaram do encontro as professoras Silvia Santiago (FCM), com larga experiência na área de Saúde Coletiva; Natália Corazza Padovani, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e professora dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Antropologia Social (IFCH); e o professor Sávio Cavalcante (IFCH).

No terceiro debate participaram o professor doutor Francisco Aoki e a professora doutora Rosana Onoko Campos, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Na avaliação deles, a sociedade brasileira já está obrigada a repensar profundamente alguns de seus valores diante da pandemia do novo coronavírus. E, ao mesmo tempo, terá que se preparar para enfrentar com equilíbrio o longo período de reclusão que ainda teremos que atravessar para conter a expansão da doença.

segundo debate, além de apresentar questões específicas da Covid-19, mostrou os reflexos imediatos e de médio e longo prazos que a “crise do coronavírus” provocará na sociedade e na economia brasileiras, que também exigem ações profundas e imediatas do poder público.

Participaram do segundo debate a professora doutora Mônica Corso, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, com especialidade em pneumologia; o professor doutor Guilherme Santos Mello, do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos de Conjuntura do instituto; e o médico sanitarista Pedro Tourinho, em segundo mandato como vereador em Campinas pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

No primeiro debate, os participantes alertaram para a necessidade urgente das autoridades brasileiras adotarem medidas rigorosas de controle para impedir uma explosão da pandemia no país. E apontaram, a partir dos dados que já se tinha naquele momento, que o Estados Unidos e, depois, a América Latina seriam os novos epicentros da pandemia.

Participaram do primeiro debate a especialista em estudos sobre vírus, professora doutora Silvia Gatti, do Instituto de Biologia e do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da Unicamp; a professora doutora Maria Filomena Vilela, da Faculdade de Enfermagem da Unicamp e do Programa de Mestrado Profissional em Saúde Coletiva; e o professor Gustavo Cunha, do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e doutor em Saúde Coletiva.