A alta pressão provocada por mudanças radicais no trabalho e pela própria pandemia elevou significativamente o nível de estresse entre docentes de universidades brasileiras, mas a necessidade de acompanhamento especializado de saúde tem sido apenas pontual.

Essa foi uma das avaliações apresentadas no debate “Desgaste Mental do Professor em Tempos de Ensino Remoto” promovido pela ADunicamp e realizado de forma virtual nesta terça-feira, 18 de agosto. O debate, moderado pela professora Ângela Fátima Soligo (FE), é o primeiro de uma série prevista para quatro encontros que a ADunicamp promove sobre “Saúde Mental Relacionada ao Trabalho (SMRT) em tempos de COVID-19”. Participaram desse primeiro debate as professoras Anna Cristina Bentes (IEL) e Andréia Garbim (PUC-SP e Makenzie-SP).

“Vivemos uma experiência nova e trágica em proporção global e todos nós tivemos que fazer adaptações em nossa vida pessoal e na vida profissional. No campo da educação as adaptações foram muitas: nas disciplinas, nas orientações, nas avaliações e nas pesquisas”, apontou a professora Ângela.

A professora Anna relatou vários aspectos que têm causado “alto estresse” entre os docentes da Unicamp, tendo como base o relatório final da consulta “Condições de Trabalho Remoto Docente no Contexto da Pandemia de Covid-19”, realizado pela ADunicamp e que ouviu 400 docentes da Universidade. Além da carga horária triplicada, um dos pontos fortes do estresse é a preocupação com os/as estudantes.

“Essa é uma característica fundamental dos/as docentes, a preocupação com o outro. Várias dificuldades surgiram com o ensino remoto. E a interação tem sido o ponto alto das preocupações no contexto dessas mudanças nas condições de trabalho”, afirmou.

Há três aspectos, no entanto, que ficaram muito claros no relatório, de acordo com a avaliação da professora Anna: o alto engajamento de todo o corpo docente da Universidade com as suas atividades e com a imagem da instituição; a resiliência e a reflexibilidade.

“Resiliência pela alta capacidade de estarem numa situação difícil, enfrentá-la, e ao mesmo tempo desenvolver estratégias que façam com que essa situação negativa se transforme em razoavelmente positiva”, avaliou Anna. “Por fim, houve muita reflexibilidade nas atuações quanto ao novo modo de ensinar, aos programas de ensino e manuseio da tecnologia”.

FORTES PRESSÕES

A professora Andréia, que é psicóloga com o olhar voltado para as relações de trabalho, lembrou que já vivíamos mudanças conjunturais no modo de trabalho, antes da pandemia. Mas, segundo ela, relatos e pesquisas feitas em diversas universidades brasileiras apontam uma abrupta intensificação da atividade dos/as docentes, a partir da implantação do trabalho remoto.

“Estamos trabalhando mais horas, mais intensamente e com mais cobranças por prazos e resultados. Estamos convivendo também com uma competitividade que não era muito afeta ao mundo acadêmico, mas que vem sendo introduzida cada vez mais. Somos cobrados por números, artigos, defesas, orientações e também estamos em função das novas tecnologias”, ponderou Andréia.

Para ela, as tecnologias introduziram mudanças importantes em todo o mundo do trabalho, mas no contexto do trabalho remoto passaram a dar um caráter de urgência nas relações interpessoais e de trabalho. “Estamos disponíveis em tempo integral para o trabalho e é o acesso à tecnologia que nos disponibiliza”, avaliou.

Todos esses elementos de tensão e pressão são agravados no mundo acadêmico pela situação socioeconômica e política do país e pela precarização crescente das condições de trabalho das classes trabalhadoras. De acordo com Andréia, é da natureza da academia e dos/as docentes universitários/as se preocupar e tomar posições diante dessas questões. “O/a docente universitário/a carrega o ideal de transformar a sociedade, o ideal de compromisso”.

HUMANIZAÇÃO

“Estamos vivendo incertezas, estamos desorientados, há um excesso de informações, mas nem sempre qualificadas. Vivendo a solidão, sensação de isolamento e ansiedades. Do ponto de vista da saúde psicológica, essas são causas fortes de angústias, sentimentos depressivos, o medo de que a futuro próximo pode ser ainda pior e mais grave”, afirmou.

A professora Andréia relatou que vários estudos apontam um aumento muito alto de distúrbios do sono, de uso de drogas e psicoativos durante a pandemia. E os estudos mostram também que cerca de 1/3 da população exposta à Covid-19 tem tendências a mostrar, mais cedo ou mais tarde, problemas psicossociais.

No entanto, de acordo com pesquisas e estudos realizados em diferentes universidades brasileiras, os/as docentes, como categoria, têm enfrentado com resiliência as questões mais difíceis.

“Pode até ser que surjam necessidades de acompanhamento de saúde, mas neste momento o que mais precisamos é de interação, de conversas à distância. Este momento é um exercício de humanização, um exercício de cuidado entre nós professores/as como categoria e entre nós e nossos/as alunos/as”, concluiu Andréia.