O Brasil ainda não tomou as medidas sanitárias e econômicas necessárias para enfrentar a situação atual e aquela prevista para futuros próximos e distantes em decorrência da “crise do novo coronavírus”. E a crise já exige medidas urgentes e profundas. Esse quadro foi apresentado nesta quinta-feira, 19, durante a segunda rodada dos debates promovidos pela ADunicamp sobre a pandemia causadora da chamada Covid-19.

Participaram do debate a professora doutora Mônica Corso, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, com especialidade em pneumologia; o professor doutor Guilherme Santos Mello, do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos de Conjuntura do instituto; e o médico sanitarista Pedro Tourinho, em segundo mandato como vereador em Campinas pelo Partido dos Trabalhadores (PT). O debate foi coordenado pelo presidente da ADunicamp, professor doutor Wagner Romão, do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Unicamp.

O professor Guilherme afirmou que a crise da Covid-19, do ponto de vista econômico e social, é uma crise como jamais foi vista na história, “pelo menos pelas novas gerações”. E os efeitos dela se prolongarão ainda por muito tempo e exigirão uma intervenção pesada do Estado para recuperar a economia, coisa que alguns países, como o próprio Estados Unidos já perceberam, mas que parece longe das decisões do governo brasileiro.

“Alguns, como o próprio presidente da França, Emmanuel Macron, costumam dizer que ‘estamos numa situação’ de guerra. Mas a questão é que numa economia de guerra está todo mundo produzindo. Produzindo para a guerra, mas com pleno emprego. Hoje é justamente o contrário. A crise econômica acontece pela falta de produção, pela falta de trabalho e de consumo”, afirmou. Outros analistas, apontou Guilherme, também tentam comparar de forma a atual crise com a de 2008. “Mas a crise de 2008 foi uma crise de crédito, que se expandiu para o mercado financeiro”. Foi o excesso de crédito que garantiu a aceleração da economia. “Mas veja como essa crise é diferente. Temos a paralisação na economia real, que está chegando numa crise de crédito e pode quebrar todo o sistema financeiro”.

Guilherme lembrou que o governo dos Estado Unidos está jogando trilhões de dólares na tentativa de manter o mercado de crédito ativo. “Mas podemos jogar quanto dinheiro for, que não adianta. Não dá para produzir. Está todo mundo em casa”.

Para Guilherme, assim que a pandemia acabar, a crise na economia ainda se arrastará por muito tempo e a intervenção dos Estados, tanto na recuperação do sistema financeiro, como em investimentos na produção, será o único fator capaz de acelerar novamente a economia. “As empresas estarão quebradas, o desemprego será enorme”.

Neste momento, como já perceberam alguns governos, como o norte-americano, os tesouros nacionais terão que gastar “o que tiver que gastar” para conter a pandemia e impedir a quebradeira de empresas e o desemprego em massa. “Mas não vemos nenhum posicionamento neste sentido por parte do governo brasileiro”. Ele lembrou que passamos anos criminalizando as intervenções do Estado na economia e que agora essa intervenção será indispensável.

JAMAIS SABEREMOS

A verdadeira dimensão da pandemia no Brasil jamais será conhecida. Isso porque, como informaram e analisaram a professora Mônica e o vereador Tourinho, o Brasil não conseguirá realizar testes em larga escala, modelo apontado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para controlar a pandemia.

Esse novo coronavírus apresenta uma ampla variedade de respostas clínicas, mostrou Mônica com base nos resultados obtidos em todos os países que vivem a pandemia.