A possibilidade de termos uma vacina contra a Covid-19 nos próximos meses é muito remota e praticamente impossível”, enquanto a chamada “vacina russa” anunciada como prestes a ser licenciada está longe de ter passado pelas etapas científicas consideradas indispensáveis para a obtenção de um produto seguro.

Essas conclusões foram unânimes entre os/as participantes do 11° debate virtual promovido pela ADunicamp sobre a Covid-19 e que teve como tema “A busca e o trabalho científico para a obtenção de vacinas contra a Covid-19. Participaram do debate o biólogo Gabriel Fernandes, pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Minas (Instituto Rene Rachou), e as biólogas Izabella Pena, Pós doc no Whitehead Institute do MIT (Boston/EUA), e Silvia Gatti (IBUnicamp), presidente da ADunicamp e mediadora do encontro.

“Vivemos a maior crise de saúde pública do século e de todas as nossas vidas e ela só será resolvida com a vacina. O desenvolvimento da vacina é crucial”, afirmou Izabella. Ela relatou que existem 140 vacinas sendo pesquisadas no mundo, 25 delas em fase clínica e apenas três em fase final.

“Não podemos chamar de vacinas ainda, por enquanto são preparações biológicas candidatas a vacinas. Só a última fase do experimento, a chamada Fase 3, vai provar se são vacinas ou não. E apenas três estão nesta fase”, apontou.Duas delas, a Oxford e a Sinovac, em teste no Brasil.

Gabriel Fernandes fez um detalhamento de como se processam as fases de preparação e teste das vacinas e as diferentes tecnologias que vêm sendo utilizadas nas seis vacinas que se encontram em fase adiantada de testagem no mundo. A de Oxford, com mais de 10 mil voluntários sendo testados no Brasil, e a Sinovac, com mais de oito mil, têm previsão de encerrar a Fase 3 apenas em outubro de 2021.

“A Fase 3 tem que ser obrigatoriamente testada em milhares de pessoas e por longo tempo. E a tal ‘vacina russa’ foi testada em apenas 38 pessoas”, relatou Gabriel.

 

A FASE 3

A Fase 3 da experimentação tem que verificar o efeito real da vacina na proteção contra a doença, os eventuais efeitos colaterais e ainda o tempo em que a proteção permanece no corpo. Por isso, normalmente, ela demora anos. “A do Ebola, por exemplo, demorou cinco anos”, lembrou Gabriel. Após isso, a vacina entra no processo de licenciamento, que também demora meses.

No caso da Covid-19, muitas vacinas estão acelerando etapas, então os resultados reais só serão conhecidos ao longo dos anos, mesmo após a vacinação em massa. “A vacina não mata o vírus. Ela estimula o nosso sistema imunológico a se proteger dele”, disse Izabella. E há vacinas que mantém os sistemas de defesa ativos contra determinado microrganismo por toda a vida, enquanto outras têm que ser reaplicadas de tempos em tempos. “Estamos diante de uma doença nova. Só o tempo trará respostas. E estamos trocando o pneu com o carro andando”, afirmou Gabriel.

 

NO MUNDO

De acordo com os debatedores, o mundo deverá conviver ainda por muito anos com a Covid-19. Mesmo após a aprovação e o início de fabricação da vacina, será impossível imunizar os sete bilhões de habitantes do planeta em poucos anos.

A fabricação da vacina exige estruturas complexas e caras e profissionais muito qualificados. Na América Latina apenas sete países têm estruturas para fabricação de vacinas, entre eles os Brasil. “A Fiocruz-Manguinhos, por exemplo, tem capacidade de produção de 40 milhões de doses de vacinas por mês, mas não pode deixar de produzir todas as outras vacinas para produzir só da Covid-19”, afirmou Gabriel. “No Brasil temos uma situação privilegiada, fabricamos vacinas e temos o SUSpara distribui-las, mas a maioria dos países não têm um sistema de saúde pública para toda a população e aí serão vacinados somente aqueles que puderam pagar”.

Depois, lembrou ele, ocorrerão vários problemas na distribuição da vacina, que começam com a própria embalagem, além da logística de distribuição. “A maior produtora de vidros para vacinas tem a capacidade de produzir 500 milhões de vidros por ano e precisaremos de bilhões”, relatou.  

 

IMUNIDADE DE REBANHO

Os participantes do encontro também foram unanimes em descartar a chamada “imunidade de rebanho” ou “imunidade coletiva” como caminho para a contenção da pandemia.

“E se a imunidade não for duradoura? nunca teríamos ‘imunidade de rebanho’. Não há tempo ainda e nem dados consolidados para avaliarmos isso”, ponderou Izabella.

Para a professora Silvia Gatti há um grande número de repostas diferentes, inclusive regionais, no desenvolvimento da pandemia. “Ainda não sabemos, por exemplo, qual o impacto da carga viral que um ou outro recebeu e qual o impacto dela no momento da infecção”, afirmou.

Gabriel lembrou ainda que apenas agora começam a aparecer indícios de uma possível base genética para diferentes respostas individuais à infecção pelo coronavírus. “Estamos considerando só uma imunidade, no caso da ‘imunidade de rebanho’, mas existem muitas variantes que devem ser consideradas. Não é a saída para conter a pandemia”, apontou.