Flexibilizar o isolamento social neste momento, como o prefeito Jonas Donizete (PSB) pretendia que ocorresse em Campinas a partir do dia 4 de maio, é “um crime contra a saúde pública” que pode provocar mortes em massa, não só de pessoas acometidas pela Covid-19, mas também de portadores de outras doenças e que não terão acesso a leitos de UTI se precisarem. Além disso, a proposta de flexibilização apresentada pelos órgãos de saúde de Campinas é “totalmente precipitada e irresponsável” e poderá transformar a cidade na grande propagadora da Covid-19 rumo ao interior paulista.

Esses alertas foram lançados nesta terça-feira, 28, pelos três especialistas que participaram do sétimo debate realizado pela ADunicamp sobre a crise do novo coronavírus e que teve como tema “Subnotificação e os riscos de flexibilização da quarentena”. O encontro, como lembrou o presidente da ADunicamp e coordenador do debate, professor Wagner Romão (IFCH), aconteceu exatamente no dia em que o Brasil registrou mais de cinco mil mortos pela Covid-19 e superou a China, país onde a pandemia teve início.

A flexibilização em Campinas a partir do dia 4 de maio foi proibida pelo Governo do Estado, com base em decreto que determina a quarentena em cidades paulistas até 10 de maio, mas pode ocorrer a partir de então se não houver nova determinação estadual.

Participaram do debate o professor doutor Heleno Rodrigues Corrêa, epidemiologista e especialista em saúde pública (Unicamp/UNB); a professora doutora Verônica González-Lopez (IMECC/Unicamp), especialista em estatística e integrante da diretoria da ADunicamp; e a presidente do Conselho Municipal de Saúde de Campinas e dirigente do Movimento Popular de Saúde, Nayara Lúcia Soares Oliveira, socióloga com especialização em saúde pública.

CRIME CONTRA A VIDA
O professor Heleno, com larga experiência em ações de controle de epidemias, afirmou que a pressão pela flexibilização do isolamento, que tem sido comandada por setores da economia com apoio de grandes veículos da mídia comercial, configura “um crime contra a vida”.

“Sabemos que a volta às ruas de forma desordenada é um crime que vai gerar um grande número de covas”, garantiu ele, com base na análise dos dados da pandemia no Brasil e em outros países. E a escolha de Campinas como cidade teste para acelerar a flexibilização não é aleatória. “Campinas foi o laboratório onde o SUS se desenvolveu muito no Brasil e criou modelos de saúde pública que hoje são usados em todo o país. Toda vez que se quer esfaquear o SUS, como acontece agora, Campinas também é usada como laboratório”.

Os argumentos dos defensores da flexibilização são, segundo Heleno, “totalmente errados do ponto de vista da saúde pública”. Ele advertiu que tem sido propalada a falsa informação de que a epidemia perderá a força quando grande parte da população for contaminada, “alguns falam em 70% ou 80”. “Mas isso é mentira”. Pelo contrário, afirmou ele, quanto mais gente o novo coronavírus contaminar rapidamente, maior a possibilidade de que sejam geradas mutações que criem cepas ainda mais resistentes e agressivas do vírus.

Para Heleno, pessoas ligadas à área de saúde e autoridades informadas que propagam esse tipo de informação estão cometendo um crime. “Não são ignorantes. São criminosas”.

‘ABSURDO’ EM CAMPINAS
Na mesma direção de Heleno, a presidente do Conselho de Saúde Nayara Oliveira, afirmou que o plano de flexibilização divulgado pela Prefeitura de Campinas, e que prevê a liberalização completa em 42 dias, é “um completo absurdo”.

O plano apresentado, e que está disponível nas página da prefeitura na internet, com o nome “Plano de Monitoramento da Pandemia de Covid-19 em Campinas e Flexibilização do Distanciamento Social”, prevê a flexibilização em três etapas, cada uma delas com a duração inicialmente prevista de 14 dias. Em cada uma das etapas é especificada a abertura de um conjunto de estabelecimentos comerciais, igrejas, cinemas, shoppings e assim por diante, com regras de distanciamento, uso de máscaras, limites de ocupação dos espaços e outras medidas para cada caso.

O plano também estabelece critérios a serem verificados no final de cada etapa, para que seja autorizada a passagem para a fase seguinte. Entre eles, a garantia de que não houve crescimento no número de casos, crise de atendimento na saúde ou superlotação de UTIs. O plano também afirma que a prefeitura deverá realizar um “programa robusto” de testagem para a Covid-19.

“O plano prevê então que, se as etapas forem mesmo superadas a cada 14 dias, em 42 dias voltaremos à ‘vida normal’. Mas em qual país da carochinha esse povo pensa que está? Não vai existir ‘vida normal’ após o coronavírus por, pelo menos, um ou dois anos, tempo que se estima para que tenhamos vacina ou tratamentos eficazes”, afirmou.

Nayara destacou que a alta subnotificação de casos em Campinas é muito alta, de acordo com levantamentos feitos pela Conselho Municipal de Saúde. “Estima-se que os casos oficialmente apresentados devam ser multiplicados por 12. Ou seja, às 15 horas deste dia 28 de abril, tivemos 306 casos. Multiplicados por 12, teríamos na verdade mais de três mil casos. E as mortes devem ser multiplicadas por nove. Ou seja, temos 14 óbitos oficialmente anunciados, mas já devem ter chegado a mais de 120”.

O Conselho Municipal de Saúde, relatou Nayara, tem acompanhado de perto e levantado, além dos dados oficialmente divulgados, a situação da pandemia na cidade. “A situação em Campinas ainda não é tétrica, como em São Paulo, graças ao isolamento que tem abaulado a curva de crescimento da doença”.

O SUS em Campinas tem 26 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes, enquanto a rede privada de planos de saúde tem 56 leitos para cada 100 mil. “Numa iminência do sistema entrar em colapso como o poder público vai agir? Vai criar uma fila única? Nada disso está especificado no plano de flexibilização”, afirmou.

De acordo com ela, a prefeitura tem avançado em investimentos para enfrentar a pandemia, como a construção em andamento do hospital de campanha. “Mas ainda estamos muito longe de ter estrutura para enfrentar um crescimento acentuado de casos”.

Com base em estudos e diagnósticos de especialistas, o conselho presidido por Nayara elencou seis pontos que deveriam ser rigorosamente respeitados em qualquer proposta de flexibilização. Entre eles, a baixa incidência de novos casos, ocupação máxima de 70% dos leitos nos hospitais, garantia de proteção aos profissionais da saúde e a testagem maciça e rápida, com critérios científicos, de todos os segmentos da população. E, segundo ela, o plano de flexibilização proposto não toca em quase nenhum dos pontos elencados. O plano fala também na realização de “testes robustos”, mas Campinas ainda não conseguiu chegar perto dos índices de testagem que já são feitos em cidades como Botucatu e Araraquara. “Campinas não está preparada para enfrentar a flexibilização”, garantiu.

Nayara lembrou ainda que Campinas está muito perto de São Paulo, com muitos moradores que trabalham na capital e vão e voltam diariamente. Além disso, é um dos principais eixos rodoviários em direção a cidades do interior paulista. “A expansão da pandemia aqui vai levar coronavírus para todo o interior paulista”.

SUBNOTIFICAÇÃO
A professora Verônica González-Lopez afirmou que ainda estamos longe de ter dados suficientes para construir um modelo científico que ajude as autoridades de saúde a tomarem decisões sobre o momento adequado de flexibilizar o isolamento social.

Com base em estudos de outras epidemias causadas por coronavírus, como a da SARs de 2002 a 2004, Verônica afirmou que foram elaborados modelos estatísticos precisos que permitem acompanhar a evolução da pandemia. Esses modelos têm sido auxiliares importantes nas decisões tomadas por países que tem conseguido controlar a expansão da Covid-19.

Mas, para a construção desses modelos, são fundamentais informações estatísticas seguras, como os índices de expostos assintomáticos, de infectados fortes em quarentena ou fora dela e de infectados sem diagnóstico, entre outros. “Com esses dados temos como reproduzir o modelo da epidemia e a expectativa de evolução dela”.

Hoje, a taxa mundial de transmissão da Covid-19 está em torno de 3,58, ou seja, cada pessoa infectada transmite o vírus para outras 3,58. Na China, em 2003, a taxa de transmissão da SARs, que também foi demolidora, era de 1,74, em março, mas caiu rapidamente para 0,93 em abril e, no mês seguinte, já ficava em 0,43, graças às medidas rigorosas adotadas.

Mas, em todo o Brasil, a subnotificação de casos é altíssima e, portanto, não existem dados minimamente seguros sobre as taxas de transmissão. “E como vamos tomar a decisão de abrir a quarentena, ou o isolamento social, se não temos sequer as variáveis básicas para determinar um modelo epidemiológico? ”

OUTROS DEBATES
A ADunicamp já realizou, nos dias 16, 18 e 25 de março e 1°, 7 e 15 de abril, seis debates para discutir questões relacionadas à Covid-19, todos eles coordenados pelo professor Wagner Romão.

O sexto debate, “CORONAVÍRUS: A contenção do tratamento da Covid-19”, alertou para a falta de uma estratégia nacional para conter a pandemia no país e para as supostas “soluções mágicas” que vêm sendo propaladas como medicamentos capazes de curar a doença. Participaram do debate a professora doutora Wanda Almeida (FCF/Unicamp), com larga experiência no desenvolvimento de fármacos; e o professor doutor Gastão Wagner Campos (FCM/Unicamp), médico sanitarista com atuação nas áreas de Saúde Coletiva e Saúde Pública.

O quinto debate, com o tema “Ensino à Distância no contexto da pandemia”, apontou que a opção ampla pela utilização da EaD tem sido realizada de forma improvisada e imediatista pelas políticas educacionais do governo Federal, de governos estaduais e municipais e por um grande número de instituições de ensino brasileiras. E, por isso, ameaça precarizar todos os níveis do ensino e ampliar as desigualdades já acentuadas no sistema de ensino do país.

Participaram do encontro as professoras Heloísa Lins, da Faculdade de Educação da Unicamp e integrante da Abalf (Associação Brasileira de Alfabetização); Solange Pozzuto, diretora da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) e integrante do Fórum de Educação de Campinas; e o professor Salomão Ximenes, da UFAABC (Universidade Federal do ABC), com especialidade nas áreas de Direito e Políticas Públicas.

O quarto debate teve como tema “Coronavírus: isolamento espacial, tensões sociais e violência doméstica”. Para os três debatedores que participaram do encontro, a pandemia tem deixado cada vez mais evidentes algumas das principais contradições sociais e econômicas da sociedade brasileira, e será inevitável que novos pactos sociais sejam construídos assim que ela chegar ao fim.

Participaram do encontro as professoras Silvia Santiago (FCM), com larga experiência na área de Saúde Coletiva; Natália Corazza Padovani, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e professora dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Antropologia Social (IFCH); e o professor Sávio Cavalcante (IFCH).

No terceiro debate participaram o professor doutor Francisco Aoki e a professora doutora Rosana Onoko Campos, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Na avaliação deles, a sociedade brasileira já está obrigada a repensar profundamente alguns de seus valores diante da pandemia do novo coronavírus. E, ao mesmo tempo, terá que se preparar para enfrentar com equilíbrio o longo período de reclusão que ainda teremos que atravessar para conter a expansão da doença.

O segundo debate, além de apresentar questões específicas da Covid-19, mostrou os reflexos imediatos e de médio e longo prazos que a “crise do coronavírus” provocará na sociedade e na economia brasileiras, que também exigem ações profundas e imediatas do poder público.

Participaram do segundo debate a professora doutora Mônica Corso, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, com especialidade em pneumologia; o professor doutor Guilherme Santos Mello, do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos de Conjuntura do instituto; e o médico sanitarista Pedro Tourinho, em segundo mandato como vereador em Campinas pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

No primeiro debate, os participantes alertaram para a necessidade urgente das autoridades brasileiras adotarem medidas rigorosas de controle para impedir uma explosão da pandemia no país. E apontaram, a partir dos dados que já se tinha naquele momento, que o Estados Unidos e, depois, a América Latina seriam os novos epicentros da pandemia.

Participaram do primeiro debate a especialista em estudos sobre vírus, professora doutora Silvia Gatti, do Instituto de Biologia e do Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da Unicamp; a professora doutora Maria Filomena Vilela, da Faculdade de Enfermagem da Unicamp e do Programa de Mestrado Profissional em Saúde Coletiva; e o professor Gustavo Cunha, do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e doutor em Saúde Coletiva.