Aprender com a História?! Aus der Geschichte lernen?!

Cada coisa a seu devido tempo, diz a sabedoria popular. Em 2019 completam-se 100 anos desde a Constituição da República de Weimar (Weimarer Reichsverfassung) – a primeira e única vez que a Alemanha teve, de fato, uma constituição democrática. São também 70 anos de vigência da Lei de Base (Grundgesetz) elaborada no pós-guerra como provisória, mas hoje com status de constituição.1 Levando em conta esses marcos históricos alemães e o momento político brasileiro, esta 4ª edição da Semana da Língua Alemã na Unicamp deixa um pouco de lado os aspectos culturais enfatizados em edições anteriores, abrindo espaço para uma discussão de fundo, envolvendo as relações entre o Sistema de Judiciário (Rechtssystem) e a implementação do Direito voltado para o Cidadão, no espírito do Estado de Direito democrático (demokratischer Rechtsstaat). A programação gira em torno de quatro filmes que levantam de algum modo questões relativas a esse tema, tendo como eixo central um documentário-ficção sobre o Procurador de Justiça Fritz Bauer, que se notabilizou por tentar levar a julgamento, na Alemanha, os criminosos de guerra nazistas – no auge da guerra fria.

Ao final da Primeira Guerra mundial, Rosa Luxemburg vaticinou que havia apenas dois caminhos para a Alemanha: socialismo ou barbárie. Deu barbárie, como mostram o filme Rosa Luxemburg (1986) e o decorrer da História. Mais tarde, quando a Segunda Guerra entrava na fase do declínio alemão, um grupo de estudantes da Universidade de Munique tentou organizar uma resistência pacífica contra o fascismo. Foram presos, condenados em processo sumário e executados. No pós-guerra, continuaram a ser considerados criminosos, em função do julgamento feito pelo sistema judiciário nazista. O filme Die weiße Rose / A Rosa Branca (1982) deflagrou um processo de discussão que levou a uma alteração da legislação, retificando esse entendimento, num longo retrabalho (Aufarbeitung) da História. Nos anos 1960, Fritz Bauer foi considerado traidor da pátria, por repassar ao Mossad (serviço secreto de Israel) informações que levaram à localização do criminoso de guerra Adolf Eichmann na Argentina, com seu posterior julgamento em Jerusalém – e não na Alemanha, como Bauer queria. É esse o tema do documentário-ficção Der Staat gegen Fritz Bauer / O Estado contra Fritz Bauer (2015). O julgamento de Eichmann em Jerusalém serviu de base para a célebre tese da banalidade do mal (Banalität des Bösen) elaborada por Hannah Arendt.2 O tema é abordado em Hannah Arendt (2012), retomando, um quarto de século mais tarde, a dobradinha direção/atriz principal da obra sobre Rosa Luxemburg. Em tempo: a recente edição comentada da obra completa de Arendt, em alemão e inglês, mostra como o estilo adotado pela autora ao escrever para diferentes públicos levou à construção de diferentes imagens de seu pensamento.

Esses quatro filmes, a serem exibidos na segunda semana de abril – no Auditório da ADunicamp, sempre às 18h, com apresentação inicial por alun*s de alemão do CEL/Unicamp – formam o pano de fundo para um debate programado para quarta-feira, dia 10 de abril, às 20h, no mesmo local. Desde logo, colocam-se algumas perguntas dignas de reflexão. O que significa a banalidade do mal nos dias de hoje, em nosso país? Em que medida o conceito elaborado por Arendt expressa também a atitude de má fé no sentido descrito por Sartre: esconder-se por detrás de argumentos formais, como obrigação profissional, para não agir diante de situações que demandam nosso engajamento? Qual seria uma atitude compatível com a de Fritz Bauer, para quem atua hoje no sistema judiciário brasileiro? Até que ponto e em que sentido a atitude de boa parte da sociedade brasileira, aí inclusa a mídia hegemônica e membros de instituições públicas, alinha-se com o que ocorreu na Alemanha, no final da República de Weimar? Fritz Bauer, no célebre programa de TV Kellergespräch em que fala com estudantes, atribui a responsabilidade pela ascensão e consolidação do nazismo não apenas a seus seguidores (Mitläufer), mas também, em boa parte, à chamada “maioria silenciosa” (schweigende Mehrheit) que se recusava a tomar uma posição – ajudando a consolidar o estado autoritário ao “lavar as mãos” diante do processo. O que significa hoje lavar as mãos diante da política? A Argentina retrabalhou sua História recente; no Brasil, prevaleceu o esquecimento como forma de não lidar com o que é difícil e doloroso. Saberemos aprender com a História? Deixaremos essa tarefa para gerações futuras, ou é agora o momento de dizer não ao que não se pode aceitar? Como fazer isso? É certo que problemas semelhantes aos nossos se colocam, de forma aguda, em outros lugares – inclusive nos países de expressão alemã. Quais são as peculiaridades de cada contexto? A depender dos aspectos que privilegiarmos ao assistir os quatro filmes, outras perguntas certamente surgirão. A mesa com especialistas convidad*s para discutir o tema conosco é uma boa oportunidade para avaliar os riscos e possibilidades implicados em cada atitude que tomarmos, sejam elas de distanciamento ou participação.

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1 Vide http://bit.ly/2HNJgJR (texto em alemão).

2 Marcelo Andrade oferece uma boa porta de acesso ao tema, com seu texto “A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral: contribuições arendtianas“. Revista Brasileira de Educação v. 15 n. 43 jan./abr. 2010, p. 109-125. Cf. https://bit.ly/2HokTDf

PROGRAMAÇÃO