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Por Luiz Marques* para a Folha de São Paulo

Em março de 2018, António Guterres, secretário-geral da ONU, declarou: “As manchetes são naturalmente dominadas pela escalada das tensões, de conflitos ou de eventos políticos de alto nível, mas a verdade é que as mudanças climáticas permanecem a mais sistêmica ameaça à humanidade. Informações divulgadas recentemente pela Organização Meteorológica Mundial, pelo Banco Mundial e pela Agência Internacional de Energia mostram sua evolução implacável”. Meses antes, um discurso proferido em Riad por Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional, exibia um teor similar: “Se não fizermos nada a respeito das mudanças climáticas, seremos tostados, assados e grelhados num horizonte de tempo de 50 anos”1. Ambas as advertências reconhecem a extrema gravidade de nossa situação, a respeito da qual o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) é categórico: “O aquecimento do sistema climático é inequívoco. A influência humana sobre o sistema climático é clara. Limitar a mudança climática requer reduções substanciais e contínuas de emissões de gases de efeito estufa” (2007). Em seus relatórios, o IPCC colige a literatura científica sobre as mudanças climáticas e suas conclusões são baseadas em unanimidade. Essas foram endossadas, em seguida, por praticamente todas as Academias Nacionais de Ciência e reforçadas ainda pelas mais prestigiosas associações científicas dos EUA: (1) American Geophysical Union; (2) American Chemical Society; (3) American Association for the Advancement of Science; (4) Geological Society of America; (5) National Research Council; (6) American Physical Society; (7) American Meteorological Society. Em 2014, a Academia Nacional de Ciências dos EUA e a Royal Society do Reino Unido reiteraram mais uma vez esse endosso numa declaração conjunta, intitulada “Mudança Climática. Evidência e Causas”: “A mudança climática é uma das questões definidoras de nosso tempo. É agora mais certo que nunca, baseado em muitas linhas de evidência, que os humanos estão mudando o clima da Terra”2.

Malgrado esse acúmulo de saber e essa virtual unanimidade, a ciência do clima pode estar equivocada? Em princípio, sim. Ciência não é dogma, é diminuição da incerteza. Contestar um consenso científico, mesmo o mais sólido, não pode ser objeto de anátema. Mas quem o põe em dúvida deve apresentar argumentos convergentes e convincentes em sentido contrário. Na ausência destes, contestação torna-se simples denegação irracional, enfraquece o poder persuasivo da evidência, milita em favor da perda da autoridade da ciência na formação de uma visão minimamente racional do mundo e turbina a virulência das redes sociais, dos “fatos alternativos”, da pós-verdade, do fanatismo religioso e das crenças mais estapafúrdias e até há pouco inimagináveis. O negacionismo climático é apenas mais uma dessas crenças, ao lado do criacionismo e do terraplanismo, e seu repertório esgrime as mesmas surradas inverdades, mil vezes refutadas: os cientistas estão divididos sobre a ciência do clima, os modelos climáticos são falhos, maiores concentrações atmosféricas de CO2 são efeito e não causa do aquecimento global e são benéficas para a fotossíntese, o próximo mínimo solar anulará o aquecimento global, não se deve temer esse aquecimento, mas a recaída numa nova glaciação etc. Esse palavreado resulta de esforços deliberados de denegação das evidências. Diretamente ou através, por exemplo, da Donors Trust e da Donors Capital Fund, as corporações injetam milhões

de dólares em lobbies disseminadores de desinformação sobre as mudanças climáticas3.

Um terreno fértil para a denegação

Mas apenas a abundância dos meios colocados à disposição da desinformação não pode explicar seu relativo sucesso. O que, sobretudo, o explica é o fato que a mensagem dos negacionistas encontra um terreno fértil onde florescer. Antes de mais nada, a denegação da ciência do clima encontrou e ainda encontra guarida num nacionalismo em que certa esquerda retrógrada e a extrema-direita se confundem. Segundo esse nacionalismo, as mudanças climáticas e os movimentos ambientalistas em geral seriam uma cortina de fumaça para ocultar os reais desígnios imperialistas de negar aos países pobres seu próprio direito ao desenvolvimento. Um exemplo desse nacionalismo foi a aliança de Dilma Rousseff e Aldo Rebelo com o agronegócio devastador da Amazônia e do Cerrado. Se a Amazônia é nossa, afirma esse néscio nacionalismo, temos o direito de destruí-la em benefício de nossas exportações de soja e carne. Afinal, os imperialistas já destruíram suas florestas e nós destruímos, desde 1970, apenas cerca de 800 mil km2 da floresta amazônica e pouco mais de 1 milhão de km2 do Cerrado. Apenas 20% da Amazônia e 50% do Cerrado. Definitivamente, ainda temos muito a destruir e não vamos tolerar lições ou injunções imperialistas… Defesa resoluta dessa devastação encontra-se na pena de Denis Rosenfield, num texto publicado no Instituto Millenium, um thinktank brasileiro de extrema-direita: “Apesar de sua aura de politicamente corretas, [as ONGs contrárias ao novo código florestal] representam interesses concretos, mormente de países do Primeiro Mundo que competem com o Brasil e gostariam de ter maior ingerência em nossos assuntos. Agricultura, pecuária, agronegócio e energia ficariam com eles, enquanto nós deveríamos cuidar de nossas florestas”4. Outro exemplo de nacionalismo anti-ciência é a defesa do “petróleo é nosso”, como se o petróleo nacional aquecesse menos o planeta ou como se houvesse um CO2 “do bem”, já que este se traduziria em desenvolvimento para o país. Como se fosse possível, em pleno 2018, desenvolver-se afundando ainda mais o pé no acelerador do colapso socioambiental a que um próximo aquecimento médio global superior a 2oC nos condenará. A forma mais rápida, à esquerda e à direita, de “resolver” tal contradição nos termos é simplesmente negar ou desconsiderar a ciência.

Malgrado alguma tangência ideológica entre certa esquerda e a extrema-direita, o negacionismo climático e a negação da ciência em geral são fundamentalmente uma bandeira da extrema-direita e é preciso pôr em evidência uma razão maior dessa estreita afinidade. Ela se encontra, a meu ver, numa mutação histórica fundamental do teor do discurso científico. Das revoluções científicas do século XVII a meados do século XX, a ciência galgou posição de hegemonia, destronando discursos de outra natureza, como o religioso e o artístico, porque foi capaz de oferecer às sociedades vitoriosas mais energia, mais mobilidade, mais bens em geral, mais capacidade de sobrevivência, em suma, mais segurança. Seus benefícios eram indiscutíveis e apenas confirmavam suas promessas, que pareciam ilimitadas. A partir de 1962, se quisermos uma data, o livro de Rachel Carson, “Primavera Silenciosa” punha a nu pela primeira vez o lado sombrio dessas conquistas da ciência: agrotóxicos como o DDT

aumentavam, de fato, a produtividade agrícola, mas ao preço de danos tremendos à saúde e à biodiversidade. Essa primeira dissonância tornou-se muito maior nos anos 1980, quando o aquecimento global resultante das emissões de CO2 pela queima de combustíveis fósseis – justamente esses combustíveis aos quais devíamos o essencial de nosso progresso – tornou-se pela primeira vez inequívoco. A ciência começa, então, a mudar seu discurso. Ela passa a anunciar que havíamos passado da idade das promessas à idade das escolhas, de modo a evitar a idade das consequências. De condutora da humanidade à terra prometida do progresso ilimitado, a ciência começou a se tornar, sobretudo após 1968, com a criação da Union of Concerned Scientists no MIT, um foco de alerta sobre o potencial destrutivo do modo expansivo de funcionamento da sociedade que era em grande parte sua criatura. Uma brecha começava a se abrir na imagem social da ciência. Enquanto os cientistas diziam o que queríamos ouvir, tudo era defesa e apologia da ciência. A partir do momento em que seu discurso converteu-se em alertas e advertências sobre os riscos crescentes a que começávamos a nos expor, esse entusiasmo arrefeceu. A criatura começou a duvidar de sua criadora. E se tudo não passasse de alarmismo? E se a ciência se tivesse posto, mais ou menos secretamente, a serviço dos descontentes do capitalismo?

Em nosso século, esse novo mal-estar na civilização não cessou de crescer. Ele toma hoje a forma de uma espécie de divisão esquizofrênica da autoimagem de uma sociedade moldada pela ciência. Quando entramos num avião, atravessamos uma ponte ou tomamos um remédio, somos gratos às tentativas da ciência de compreender o mundo e traduzi-lo em tecnologia. Mas quando dessa mesma ciência vem o aviso que é preciso mudar o modo de funcionamento de nossa economia, conter nossa voracidade, diminuir o consumo de carne, restaurar as florestas e redefinir nossa relação com a natureza, sob pena de nos precipitarmos num colapso de insondáveis proporções, a gratidão cede lugar à indiferença, ao descrédito e mesmo à hostilidade.

Ocorre que os fatos se acumulam nos jornais, a confirmar teimosamente os relatórios, os apelos e os alertas sempre mais veementes da comunidade científica. E por mais que nossas sociedades fechem olhos e ouvidos à realidade, esta acaba por se infiltrar, ainda que residualmente, em seu imaginário, suscitando uma angústia difusa, mas fundamentalmente justificada, de que o futuro será pior. E surge aqui subitamente, numa curva inesperada da história do século XXI, a grande e única oportunidade da extrema-direita de voltar a ocupar, após os anos 1930, uma posição de relevo no cenário político, pois sua miséria mental e intelectual, feita de horror à liberdade sexual, de defesa do patriarcalismo autoritário, de criacionismo e obscurantismo religioso, torna-se o discurso mais apto a incutir uma ilusão de segurança a uma sociedade cada vez mais temerosa de seu presente e de seu futuro. A extrema-direita viceja à sombra da crescente insegurança material e psicológica das sociedades contemporâneas. Assim, paradoxalmente, quanto maiores forem as evidências de que o futuro se afigura pior, quanto mais devastadores forem os impactos das mudanças climáticas e do declínio da biodiversidade, mais irracionalmente obstinada será a recusa a admitir a causa fundamental desse processo, apontado ao longo de mais de meio século pela ciência: a interferência crescentemente destrutiva de nosso sistema econômico expansionista sobre os equilíbrios do sistema Terra. A eficiência da agenda

negacionista da extrema-direita não se explica apenas, portanto, pelo intenso trabalho de desinformação de lobbies e thinktanks subvencionados pelo Big Oil e pelo Big Food. Explica-se também, e talvez sobretudo, pelo fato que o discurso negacionista nutre-se do medo e do compreensível desejo das pessoas de se apegar cegamente à identidade de tribo, à eliminação da dissonância, à autoridade moral do pater famílias, em suma, ao mundo do passado, aquele mundo em que o futuro era, malgrado os “tropeços” da história, uma promessa. Ironicamente, a denegação da ciência do clima é, em última instância, uma reação psicológica às próprias mudanças climáticas. Os negacionistas são os primeiros a confirmar, involuntariamente, a realidade do que negam.

O último relatório do IPCC

Denegar a realidade ou diluí-la em otimismo paternalista para consumo do “grande público” só diminui nossas chances de adaptação ao que o futuro nos reserva. O que este nos reserva está consignado no recente relatório especial do IPCC5. Evitar um aquecimento médio global não superior a 1,5oC, evitar, em suma, a catástrofe, requer agora de nossas sociedades esforços “sem precedentes”. Requer reduzir em menos da metade, a cada década, as emissões globais de gases de efeito estufa, causadas sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e pela agropecuária. Dos 41 bilhões de toneladas (gigatoneladas ou Gt) de CO2 atuais, devemos passar a emitir apenas 18 GtCO2 em 2030 e enfim zero GtCO2 em 2050 (emissões líquidas). Em seguida, deveremos sequestrar o CO2 já acumulado na atmosfera, graças a tecnologias ainda indisponíveis na escala requerida. Não estamos nos preparando para esse esforço de guerra. Estamos, ao contrário, aumentando nossas emissões em pleno 2018 e nenhum estudo projeta redução da queima de combustíveis fósseis e de desmatamento no próximo decênio em escala global. Nada mais, em suma, parece nos afastar da trajetória de um aquecimento médio global superior a 2oC acima do período pré-industrial já nos próximos decênios e a um aquecimento entre 3,1 oC e 4,8 oC até o final do século, como mostra a Figura 1.

Figura 1 – Projeções de aquecimento global até 2100 segundo cinco cenários de emissões anuais de gases de efeito estufa (GEE) medidas em bilhões de toneladas ou gigatoneladas (GtCO2-eq). Gráfico baseado em Climate Action Tracker e em Jeff Tollefson (Nature, 25/IV/2018).

Num artigo publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA, Yangyang Xu e Veerabhadran Ramanathan categorizaram os impactos provocados por tais níveis de aquecimento médio global em relação ao período pré-industrial: “acima de 1,5oC = perigoso; acima de 3oC = catastrófico; acima de 5oC = desconhecido, significando além de catastrófico, o que inclui ameaças existenciais à nossa espécie”. Os autores afirmam que, mantidos os atuais níveis de emissões de gases de efeito estufa, há uma pequena probabilidade de um aquecimento catastrófico até 20506.

A catástrofe atual

Os que contestam a capacidade dos modelos científicos de predizer quando o aquecimento médio global atingirá níveis catastróficos não percebem o simples fato de que o atual aquecimento médio global de cerca de 1oC já é catastrófico. Basta atentar para a proliferação de ondas mortíferas de calor, as extinções em massa, o aumento da fome, as maiores secas, furacões e incêndios florestais que varrem o planeta. Os dados são acachapantes. Ilustro aqui, por razões de espaço, apenas um aspecto dessa catástrofe: a elevação do nível do mar por expansão térmica dos oceanos e pelo degelo. Essa elevação já se tornou irreversível e está em assombrosa aceleração, passando de uma taxa média anual de 0,6 mm nos decênios 1900-1930 para 4,4 mm em média por ano no período 2010-2015, como mostra a Figura 2

 

Figura 2 – Variações nas taxas de elevação média do nível do mar em mm por ano, de 1900 a 2015

Fonte: Hay, C.C., et al., “Probabilistic reanalysis of twentieth-century sea-level rise”. Nature, 2015, 517, 7535, pp. 481-484 e Hawai’i Climate Adaptation Portal, State of Hawai <http://climateadaptation.hawaii.gov/sea-level-rise/>.

Essa aceleração continuará. Como assegura Qin Dahe, co-diretor do quinto relatório do IPCC (2013), “o nível médio global do mar continuará a se elevar a uma taxa mais rápida que a observada nos últimos 40 anos”. Em 2016, o degelo da Groenlândia

prolongou-se por 20 a 40 dias mais que a média do período 1979-20157. Segundo Robert DeConto e David Pollard, “hoje medimos a elevação do nível do mar em milímetros por ano. Falamos de um potencial para medi-la em centímetros por ano apenas pelo degelo da Antártida”8. As projeções de elevação média do nível do mar entre 1992 e 2100 variam de 50 cm a 2,5 metros, segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA, 2017) dos EUA. Até 2030, essa elevação média será de 13 a 21 cm em relação ao nível de 2000; até 2040, de 18 a 36 cm (cenários intermediário baixo e alto, respectivamente). É inimaginável o caos global que isso provocará, levando-se em conta que em todo o século XX essa elevação foi de cerca de 20 cm. Mais da metade das metrópoles do mundo encontram-se na linha costeira. Elas serão frequentemente inundadas. Muitas usinas nucleares estarão ameaçadas, isso sem falar na salinização dos estuários e dos aquíferos costeiros, dos quais depende a segurança alimentar e hídrica de centenas de milhões de pessoas.

É isso o que a ciência clama aos quatro ventos, com sempre novos (e piores) dados de realidade, análises e projeções. Pode-se continuar negando a ciência. Ao eleger um presidente hostil ao consenso científico, o segmento mais escolarizado, e portanto supostamente mais informado, do eleitorado brasileiro efetivamente a negou. Primeiras consequências: a futura Ministra da Agricultura é a “Musa do Veneno”, o futuro Ministro das Relações Exteriores considera as mudanças climáticas uma “ideologia” das esquerdas e o futuro Ministro do Meio Ambiente, réu de processos ambientais, considera-as uma questão secundária. Esses eleitores não têm sequer o perdão da ignorância quando acolheram como um bem, ou (o que dá no mesmo) como um mal menor, a negação brutal da ciência e da realidade. Escolheram acreditar que a realidade não existe. Só que, como bem lembra Philip K. Dick, “a realidade é isto que não vai embora quando você para de acreditar nela”. Sobre esses eleitores recairá o desprezo das crianças e adolescentes de hoje, que não poderão pagar a conta do colapso ambiental que seus pais lhes deixaram.

 


1 Cf. A. Frangoul, “IMF’s Lagarde: If nothing is done about climate change, we will be ‘toasted, roasted and grilled’.” CNBC, 25/X/2017.

2 Cf. NASA, “Scientific consensus: Earth’s climate is warming” e J. Cook et al., “Quantifying the consensus on anthropogenic global warming in the scientific literature”. Environmental Research Letters, 15/V/2013.

3 Cf. S. Goldenberg, “Secret funding helped build vast network of climate denial thinktanks”. The Guardian, 14/II/2013.

4 Cf. D. Rosenfield, “ONGs”. Instituto Millenium, 9/VII/2010.

5 Cf. IPCC, Global Warming of 1.5oC, 8/X/2018.

6 Cf. “Well below 2°C: Mitigation strategies for avoiding dangerous to catastrophic climate changes”. PNAS, 14/IX/2017.

7 Cf. K. Krajick, “The Melting of the Greenland Ice, Seen Up Very Close”. State of the Planet. Earth Institute, Columbia University, 1/X/2018.

8 Cf. “Contribution of Antarctica to past and future sea-level rise”. Nature, 531, 31/III/2016.

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*Luiz Marques é professor de história da Unicamp e autor de “Capitalismo e Colapso Ambiental” (Editora da Unicamp)
Publicado originalmente no www1.folha.uol.com.br

– Ilstrações de Edson Ikê, designer e ilustrador