A luta pela democratização da mídia está intimamente ligada à defesa do conhecimento e das universidades públicas. E essa questão adquire uma importância fundamental no atual momento da história política brasileira, quando ataques ao conhecimento, à democracia e à informação partem de dentro dos governos federal e alguns estaduais, como é o caso de São Paulo. Essas foram algumas das reflexões apresentadas pelos debatedores que participaram do 2° Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de Campinas e Região, que ocorreu na sexta-feira, 26, no Auditório da ADunicamp.

“As universidades públicas passam por um momento de ataques. E a luta em defesa da democratização da mídia é parceira na luta em defesa das universidades públicas. A universidade pública é um local de produção do conhecimento. E a liberdade das universidades para produzir conhecimento está estreitamente vinculada com a defesa de uma comunicação mais democrática, pois a comunicação também é o espaço para a troca de informações e conhecimento na sociedade”, afirmou a jornalista Renata Mielli, Secretária Geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e Coordenadora do FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação), que participou da primeira mesa do encontro.

Renata historiou o papel da comunicação ao longo da construção da sociedade humana – “foi mais importante que o polegar opositor”, disse – e alertou para a forma como as “elites econômicas” ocuparam e hegemonizaram os meios de comunicação na história recente do país. A apropriação dos meios de comunicação, avaliou ela, constituiu um poder político e cultural capaz de invisibilizar ou destacar assuntos, de acordo com os interesses dessas elites.

Renata lembrou a importante atuação dos monopólios privados de comunicação nos principais momentos políticos da história recente do país, como o apoio ao golpe de 1964.

“A Rede Globo (maior veículo de comunicação na época) chegou a noticiar o ato pelas Diretas Já como se fosse comemoração do aniversário de São Paulo. Dizem que a fake news surgiu com a internet, mas essa já era a fake news do passado”.

Renata alertou para urgência que o país vive hoje de fazer uma reflexão ampla sobre a relação da democracia com a comunicação. “Defendemos reformas que deem pluralidade à mídia no país. Porque o que temos hoje não é liberdade de expressão. 100% dos canais privados de comunicação usam o mesmo discurso, em defesa dos interesses das elites econômicas dominantes”.

O tema do 2° Encontro foi a “Democracia em risco e democratização da comunicação – os desafios da mídia independente” e a primeira mesa foi mediada pelo diretor da ADunicamp Paulo Cesar Centoducatte.

SEM DEMOCRACIA

A dramaturga e blogueira Ana Roxo, que também participou da primeira mesa do encontro, questionou “a democracia que vivemos hoje” no Brasil. “Se a gente não tem uma comunicação e uma informação democratizadas não conseguimos ter democracia, porque não temos uma população informada sobre aquilo que exatamente acontece”, afirmou.

Ana, que tem o canal no YouTube “O Mundo Segundo Ana Roxo” e atua em um programa diário de discussão política no site Nocaute, ao lado do jornalista Fernando de Moraes, lembrou que correntes progressistas e o jornalismo independente foram os que primeiro viram na internet e nas redes sociais um canal para a democratização da informação.

“Interessante notar que a internet começou primeiro nas universidades. Então foi das universidades que surgiram os primeiros sites e blogs que conseguiram criar uma comunicação alternativa que desmontou em vários momentos a informação hegemônica dos mega grupos privados corporativos de comunicação”.

Para ela, a comunicação na internet pode ser bastante democratizada, no sentido de que é “muito fácil para qualquer um ter um canal no YouTube, por exemplo”, ou criar um site ou um blog.

Mas, na avaliação de Ana, a partir de 2010 as correntes progressistas “perderam o pé grosseiramente” em manter uma participação majoritária e significativa na internet. Uma das causas, avaliou ela, é que as redes sociais e a internet foram inundadas por correntes políticas ligadas à direita e à extrema direita com a linguagem de jargões, slogans e informações manipuladas e falsas, “como foi o caso da mamadeira de piroca” nas eleições de 2018.

“A diversidade (que a internet permite) passa também por um problema. Pensamentos elaborados e críticos são mais difíceis. Chegam com dificuldade ao público mais amplo”, avaliou. Para ela, há um processo muito forte de manipulação dos canais da internet, como é o caso do WhatsApp, e as correntes progressistas de ativistas digitais começam a ter consciência de que vão ter que aprender a lidar com isso. “A manipulação da informação sempre houve. A questão agora é que vemos uma verdadeira alucinação nesta manipulação”.

IMPORTÂNCIA CRESCENTE

Os jornalistas Mauro Lopes, do site Brasil 247, e Glauco Cortez, do Carta Campinas, que integraram a mesa da tarde ao lado da jornalista Laura Capriglioni, do Jornalistas Livres, mostraram em números a importância crescente que o jornalismo independente tem conquistado na internet.

Glauco apresentou os números dos acessos de leitores ao seu site Carta Campinas, em comparação com um dos principais grupos de comunicação da cidade, a Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), que detém os títulos dos dois únicos jornais locais de circulação diária.

Os números, auditados pela empresa SimilarWeb (www.similarweb.com), mostram que atualmente o Carta Campinas mantém uma média mensal de 431 mil acessos, contra 502 mil da RAC. A SimilarWeb, com sede em Londres, no Reino Unido, fornece serviços de mineração de dados e inteligência empresarial para corporações internacionais.

Assim, avaliou Glauco, o site Carta Campinas, que nasceu em 2013, hoje já disputa espaço e em alguns momentos supera e empata em número de leitores pela internet com a RAC, uma empresa centenária e praticamente hegemônica em seu segmento de comunicação na cidade. E o Carta Campinas, lembrou, é conduzido apenas por ele e mais uma pessoa – com diversos colaboradores não remunerados – enquanto a RAC conta com dezenas de jornalistas e funcionários que atuam diariamente.

“Por isso, não nos consideramos ‘mídia independente’, mas mídia. Como as demais. Então o que vemos é que é possível sim fazer muita coisa na internet. E que os setores progressistas ainda têm um amplo espaço para explorar e atuar”, avaliou.

247: EXPLOSÃO DE ACESSOS

Na mesma direção, Mauro Lopes defendeu que o portal Brasil 247 não deve mais ser tratado como “mídia alternativa”. Ele mostrou que o 247 teve, no primeiro trimestre deste ano, 242 milhões de conteúdos acessados (page views) e que os números vêm crescendo de mês a mês.

“A expectativa é que vamos terminar o ano com mais de um bilhão de page views. E, mensalmente, temos hoje entre oito e 10 milhões de visitantes únicos. Dialogamos no portal com algo entre oito e 10 milhões de pessoas de carne e osso por mês. Isso não é mídia alternativa. É uma mídia de massa”, apontou.

Mauro afirmou que o 247 se posiciona claramente como uma “mídia de esquerda” ao contrário de “mídia independente”, como às vezes é chamado. “Somos dependentes de muita coisa. E temos que nos posicionar. Somos uma mídia de esquerda porque representamos um projeto e uma visão de mundo que é completamente diferente da visão de mundo da direita e da extrema direita”, defendeu.

E, para ele, essas diferentes visões de mundo disputam espaço na internet e nas redes sociais. “E essa disputa está longe de ter sido vencida pela extrema direita, como dizem alguns. O que ocorreu recentemente foi uma questão momentânea. Eles não têm nenhuma visão técnica que nós também não tenhamos. Repito: foi uma questão momentânea e não uma questão técnica”, avaliou.

Mauro relatou uma série de experiências dos então chamados “jornais alternativos”, durante a ditadura militar. “Quando conseguíamos imprimir e distribuir 10 ou 20 mil exemplares comemorávamos”. Portanto, avaliou, a comunicação progressista e de esquerda avançou muito nas últimas décadas e a disputa com correntes de direita e extrema direita por espaços na mídia é muito mais favorável hoje do que no passado recente. “Temos hoje muito mais condições de enfrentar a mídia de extrema direita do que nossos irmãos e irmãs na Alemanha em 1930 ou durante a ditadura militar no Brasil, nos anos 1970 e 1980”, avaliou.

A DIREITA EM AÇÃO

Laura Capriglioni, do Jornalistas Livres, fez uma análise do crescimento recente das correntes de extrema direita nas mídias digitais. Para ela, o que houve a partir de 2018 foi principalmente uma “disputa de narrativa” e que foi vencida pela extrema direita que também soube explorar em profundidade as técnicas modernas de marketing e comunicação.

“A mídia da qual estamos falando aqui explodiu em 2013. Aquele foi um ano fatídico, mas que mostrou também o crescimento da mídia independente”, afirmou.

Laura lembrou as ações dos grupos de mídia que atuavam com repórteres independentes agindo em cima dos fatos. E que com apenas um telefone celular nas mãos produziam reportagens e conteúdos dentro das manifestações, nos bairros e nas periferias. “Aquilo mostrou a potência dessa mídia que é feita apenas com o recurso de um aparelho celular. De lá para cá tudo mudou. Foi criado um outro jeito de ver e de fazer jornalismo”.

O fenômeno foi tão marcante, na avalição de Laura, que a grande mídia corporativa teve que se adaptar a ele. Ela lembrou que a Rede Globo foi a primeira a retransmitir em rede nacional um vídeo do Mídia Ninja feito durante uma manifestação em 2013.

Já em 2018, essa linguagem acabaria incorporada pela Rede Globo e por outras grandes emissoras de televisão. “E é tão interessante porque a gente vê, depois, o próprio Jornal Nacional da TV Globo dando cursos sobre como o espectador fazer a sua própria reportagem usando o celular, como fez naquele projeto ‘O Brasil que eu quero’. Parecia uma aula do Jornalistas Livres”, ironizou.

Esse modelo, segundo ela, ampliou a representatividade de amplos segmentos da sociedade na mídia. “O que o Brasil discute hoje é essa questão da representatividade e nós estamos longe, muito longe, de ter a informação circulando livremente”. Isso porque, nos grandes canais da mídia corporativa, as lutas sociais são “simplesmente invisibilizadas”. E o que ocorreu com esse novo modelo de reportagem foi que os grupos e setores invisibilizados passaram a criar suas próprias redes, trazendo informações de dentro da vida que ocorre no interior deles.

De acordo com Laura, o crescimento desses canais independentes de informação permitiu que as correntes progressistas ou de esquerda passassem a ser predominantes na internet. “Nós achávamos que os donos da ‘mídia independente’ na internet éramos nós”.

Só que, principalmente a partir de 2018, esse quadro começou a mudar. “A direita e a extrema direita passaram a cobrir essa vida que ocorre nas franjas da sociedade. E cobrem com a sua visão do mundo e dos fatos”. Essa mudança foi fundamental, na avaliação de Laura, para o que ela chama de “vitória da narrativa de direita” nas eleições de 2018.

Só que, para isso, as correntes de extrema direita utilizaram técnicas e instrumentos sofisticados de comunicação e marketing, que as correntes progressistas e de esquerda ainda não se capacitaram para utiliza-las. “Daí a importância de trabalharmos no aprimoramento de nossos conhecimentos e métodos de ação”.

MESA FINAL: AÇÕES COMUNS

A Mesa de Encerramento, integrada por representantes das entidades organizadoras do evento, buscou encontrar os pontos de confluência de interesses dos participantes e propor algumas metas comuns de ação.

Rogério Bezerra da Silva, dirigente do MCTP (Movimento pela Ciência e Tecnologia Pública), afirmou que uma das decisões do movimento é a de manter uma estratégia permanente de comunicação. “O MCTP nasceu, em 2015, como uma associação de entidades ligadas à ciência e à pesquisa pública para se contrapor ao Marco Legal de Ciência e Tecnologia, aprovado no final do segundo governo Dilma. O Marco é privatista e uma das ações do MCTP é discutir não só no âmbito interno das entidades, mas também com a sociedade, a importância da ciência e da pesquisa pública. E a comunicação é fundamental para que consigamos dialogar com a sociedade”.

A professora Edwiges Morato, diretora de Comunicação da ADunicamp, defendeu a abertura de agendas comuns das entidades, com o objetivo de realizar atuações conjuntas em defesa da democratização da mídia. “Vejo que há muitos pontos de convergência nas propostas de comunicação da universidade, dos sindicatos e dos veículos independentes de mídia. Daí a importância da construção de uma agenda comum”, defendeu. Ela também colocou os canais de comunicação da ADunicamp como instrumentos para ampliar esse debate.

Victor Chinaglia, diretor do SASP (Sindicato de Arquitetos e Urbanistas no Estado de São Paulo), uma das entidades que integram o MCTP, falou da forte relação que a arquitetura e o urbanismo têm com os movimentos sociais por moradia e pela posse da terra. E, para ele, a comunicação democrática é essencial para discutir essas questões com o conjunto da sociedade. Victor propôs a criação de ações de comunicação conjuntas com as demais entidades participantes do encontro, como a criação de jornais e revistas e de uma plataforma na mídia digital para debater amplamente as demandas de democratização da mídia apresentadas no encontro.

Por fim, Cido Araújo, do Centro Barão de Itararé, reafirmou a importância de ampliar e integrar as pautas comuns de ação das entidades e da comunicação independente. “Essa agenda deve ser sistematizada com urgência”. Cido conclamou também os leitores a contribuírem efetivamente com a mídia independente, se inscrevendo nos canais, acompanhando e participando de seus debates e conteúdos.

Números mostram importância da comunicação digital

O 2°Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de Campinas e Região foi transmitido ao vivo pelos canais de comunicação da ADunicamp e retransmitido por mais seis canais de comunicação.

Apenas pelos canais da ADunicamp, o encontro chegou a ser acessado por mais de sete mil internautas individuais.

Abaixo, os canais que também transmitiram o encontro:

– Brasil 247
– Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
– Movimento pela Ciência e Tecnologia Pública
– Jornalistas Livres
– Nocaute
– Sinpaf/SSCJ (Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário/Seção Sindical Campinas e Jaguariúna)

Assista ao encontro abaixo

Mesa da manhã, com a participação da jornalista Renata Mielli, Secretária Geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e Coordenadora do FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação) e da dramaturga e blogueira Ana Roxo

Os jornalistas Mauro Lopes, do site Brasil 247, e Glauco Cortez, do Carta Campinas, integraram a mesa da tarde ao lado da jornalista Laura Capriglioni, do Jornalistas Livres